segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Responsabilidades de um dirigente/educador

«Hoje educar é transformar o mundo» o “Projecto Educativo do Escutismo” propõe-se exactamente contribuir para a educação das nossas crianças, dos nossos adolescentes e dos nossos jovens, para que estes sejam os “Homens Novos” que Jesus Cristo nos pediu que fossemos, e possam assim transformar o mundo, tornando-o mais justo, mais fraterno e mais solidário. 
A grande responsabilidade de um Dirigente/Educador é, pois, a de ser o principal responsável pelo êxito da implementação e desenvolvimento do “Projecto Educativo do Escutismo”, isto porque lhe é exigido:
  • Disponibilidade física e interior. – Disponibilidade física, porque não há educação à distância; é necessária a sua presença efectiva sempre que há Jogo Escutista e isso acontece todos os fins de semana. – Disponibilidade interior, porque em educação é preciso ouvir as nossas crianças, os nossos adolescentes e os nossos jovens, e isso não tem hora marcada, terá de ser quando o Dirigente/Educador é solicitado para ouvir.
  • Exemplo/Testemunho pessoal. – o Dirigente/Educador é sempre um modelo, uma referência, e tem de ser um modelo e uma referência do cumprimento da Lei, de levar uma vida de acordo com os valores Escutista e da Fé Católica. – o êxito na educação dos seus escuteiros vai depender em grande parte disso.
  • Intencionalidade educativa, sempre que está com os seus escuteiros a jogar o “Jogo Escutista”, ou em outras situações.
  • Conhecimento dos principais traços psicológicos das diferentes fases da vida dos jovens com quem trabalha, para poder perceber objectivamente se as suas reacções e ou atitudes, são naturais no contexto, ou saem fora desse mesmo contexto.
  • Espírito aberto para aprender – nunca ninguém sabe tudo a respeito do que quer que seja – a vida de Dirigente/Educador, tem de ser uma aprendizagem permanente.
  • Amor e apego à juventude – não é possível levar a bom porto a missão de educar, se não se estabelecer uma certa empatia com os nossos escuteiros e isso só é possível se gostarmos de todos eles. 

    domingo, 19 de setembro de 2010

    A desobediência civil

     
    É comum depararmos-nos com pessoas que contestam verbalmente, em conversas de café, determinados preceitos legais, acusam o poder político de criar leis que não se ajustam à realidade, é também comum o uso de subterfúgios para tornear esses preceitos legais. 
    É o famoso "desenrascanço" português, mas no fundo não será esse "desenrascanço" um acto de cobardia? Porquê? Porque o cidadão tem um meio de contestar e protestar contra um preceito lega abusivo ou injusto. A desobediência civil! O que é isso? Segundo Nigel Warburton na sua obra "Elementos Básicos de Filosofia": 
    Algumas pessoas argumentam que a violação da lei nunca se pode justificar: se não estamos satisfeitos com a lei, devemos tentar mudá-la através dos meios legais, como as campanhas, a redacção de cartas, etc. Mas há casos em que tais protestos legais são completamente inúteis. Há uma tradição de violação da lei em tais circunstâncias conhecida por desobediência civil. A ocasião para a desobediência civil emerge quando as pessoas descobrem que lhes é pedido que obedeçam a leis ou a políticas governamentais que consideram injustas.
    ...
     
    A desobediência civil corresponde a uma tradição de violação não violenta e pública da lei, concebida para chamar a atenção para leis ou políticas injustas. Os que agem nesta tradição de desobediência civil não violam a lei unicamente para seu benefício pessoal; fazem-no para chamar a atenção para uma lei injusta ou para uma política moralmente objectável e para publicitar ao máximo a sua causa. Por isso é que estes protestos ocorrem habitualmente em lugares públicos, de preferência na presença de jornalistas, fotógrafos e câmaras de televisão. Por exemplo, um americano chamado para a guerra que deitasse fora a sua convocatória durante a Guerra do Vietname, escondendo-se de seguida do exército só por ter medo de ir para a guerra e por não querer morrer, não estaria a executar um acto de desobediência civil. Seria um acto de autopreservação. Se agisse da mesma maneira, não por causa da sua segurança pessoal, mas por motivos morais, mas que no entanto o fizesse em segredo, não tornando público este caso de nenhuma forma, continuaria a não poder considerar-se um acto de desobediência civil. Pelo contrário, outro americano convocado para a guerra que queimasse a sua convocatória em público perante câmaras de televisão, comunicando ao mesmo tempo à imprensa as razões que o levavam a pensar que o envolvimento americano no Vietname era imoral, estaria a cometer um acto de desobediência civil. 
    O objectivo da desobediência civil é, em última análise, mudar leis e políticas particulares, e não arruinar completamente o estado de direito. Os que agem na tradição da desobediência civil evitam geralmente todos os tipos de violência, não apenas porque pode arruinar a sua causa ao encorajar a retaliação, conduzindo assim a um agravamento do conflito, mas sobretudo porque a sua justificação para violar a lei é moral, e a maior parte dos princípios morais só permite que se prejudique outras pessoas em situações extremas, tal como quando somos atacados e temos de nos defender.

    quinta-feira, 16 de setembro de 2010

    A objectiva

    A objectiva é a parte da câmara que dirige os raios de luz até ao sensor.

    Consta de uma ou várias lentes de forma convexa que projecta os raios de luz que a atravessam num ponto chamado foco. Quando focamos com a câmara na realidade o que fazemos é fazer coincidir o foco com o sensor da câmara para obter uma imagem nítida.

    Com ela ajustamos a distância focal (zoom) e a focagem. Com uma distância focal de 50 mm consegue-se uma visão o mais parecida com o olho humano.

    Todas as objectivas tem uma série de características que as fazem mais idóneas para dar forma aos tipos de fotos:

    • Distância mínima de focagem: É a distância a partir da qual se pode focar. Se fazemos uma fotografia abaixo da dita distância a objectiva não poderá focar e a imagem sairá tremida.
    • Abertura máxima do diafragma: Como vimos no tema de abertura do diafragma, cada objectiva tem uma abertura máxima do diafragma.
    • Distância focal mínima e máxima: Ou o grau de zoom que tem. Uma objectiva pode ser de foco fixo ou de foco variável (tipo zoom).
    • Estabilizador de imagem: O estabilizador de imagem é um sistema que reduz as vibrações, evitando trepidação. Facilita que as fotos não saiam tremidas e ajuda a obter fotos mais nítidas. Pode ir integrado na objectiva e também no corpo da câmara. A primeira opção faz que as objectivas sejam claramente mais caras ainda que seja mais efectivo. A segunda opção faz que seja mais barato, já que se pode comprar várias objectivas que não sejam estabilizadas mas dispor desta funcionalidade em todas.
    • Focagem: O sistema de auto focagem varia em velocidade e precisão segundo a gama da objectiva. As de alta gama tem uma auto focagem muito mais rápida e permite focar em condições piores de luz. Este aspecto é especialmente importante para fotografias nas que há muito movimento, como desportos. Outra diferença é que algumas objectivas permitem focar manualmente sem ter que mudar de modo automático para modo manual.
    • Qualidade de construção: As objectivas profissionais distam claramente na qualidade de construção com as objectivas domésticos. Permitem um uso mais extremo já que estão mais preparados para as inclemências, como a chuva, o pó e os golpes. Uma vez mais, o bom paga-se.
    • Nitidez, distorção e aberrações: As objectivas deformam a imagem, ainda que na ocasião seja imperceptivel. Isto se dá por causa do formato das lentes e por causa da precisão no seu processo de fabricação e fazem que a imagem fique distorcida. Os desvios (imperfeições) das imagens reais de uma imagem ideal prevista pela teoría simples denominam-se aberrações. A soma destes factores faz que uma objectiva seja mais ou menos nitida e fiel à realidade. Também se paga.

    quarta-feira, 15 de setembro de 2010

    Coprocessador aritmético mais rápido

    O coprocessador aritmético do Pentium foi completamente remodelado. Foram alteradas algumas das instruções, que passaram a ser executadas muito mais rapidamente e, como o processador principal, o coprocessador do Pentium também passou a utilizar um pipeline para aumentar a velocidade de execução das instruções. 
    Somadas com as brutais melhorias na arquitectura, o coprocessador do Pentium tornou-se cerca de 5 vezes mais rápido do que o utilizado no 486, tornando o processador muito mais rápido em aplicativos que exijam um grande número de cálculos.
    in Manual de Hardware Completo
    de Carlos E Marimoto

    terça-feira, 14 de setembro de 2010

    Caretta caretta, Tartaruga-comum

    Taxonomia
    Reptilia, Testudines, Cheloniidae.

    Tipo de ocorrência
    Açores e Madeira: Visitante.

    Classificação
    Açores e Madeira: EM PERIGO . EN (A1abd) (adopção da categoria IUCN (1994))
    Fundamentação: A espécie teve uma redução do tamanho da população de pelo menos 50% nas últimas 3 gerações.

    Distribuição
    A tartaruga-comum é uma espécie de distribuição ampla, em águas costeiras tropicais e subtropicais, em todos os oceanos.

    Em Portugal ocorre em números apreciáveis somente nas subáreas da Zona Económica Exclusiva (ZEE) dos Açores e da Madeira, fazendo parte de uma população mais ampla que abrange grande parte do Atlântico Norte Central e Ocidental.

    As águas continentais servem de passagem ocasional para indivíduos de origem principalmente norte-atlântica, mediterrânica e possivelmente marroquina e cabo verdiana. Como tal, esta espécie deverá ser considerada, segundo as definições da IUCN, uma espécie visitante nas águas das subáreas das ZEE insulares e ocasional na subárea do Continente.

    População
    As tartarugas-comuns presentes em águas insulares pertencem às populações nascidas nas costas ocidentais do Atlântico Norte: nas praias do Sudeste dos Estados Unidos da América e da adjacente península de Yucatán, México (Bolten et al. 1998). Sendo as tartarugas filopátricas as suas praias de nidificação podem ser subdivididas em subpopulações geneticamente distintas. Foram encontradas em águas insulares tartarugas com origem nas subpopulações da Florida NE-NC (Florida NE . Carolina N), da Florida SE-SW e do Yucatán / México (Turtle Expert Working Group 1998, 2000, National Marine Fisheries Service Southeast Fisheries Science Center 2001).

    Estes animais passam os primeiros 6-12 anos da sua vida, fase vital denominada de estado oceânico ou pelágico, em águas portuguesas (Bjorndal et al. 2000, Bjorndal et al. 2003a). As populações insulares são, portanto, compostas exclusivamente por indivíduos juvenis não maduros.

    Não é possível neste momento efectuar uma estimativa clara do número de indivíduos que frequentam de facto as águas insulares, tendo em conta a dimensão da área a amostrar e a probabilidade de avistamento depender de factores comportamentais, oceanográficos e meteorológicos (Dellinger 2000).

    As tartarugas foram historicamente exploradas pelo homem, supondo-se que os seus níveis populacionais estejam muito reduzidos em relação a níveis de pré-exploração. Não existem contudo dados sobre estes últimos para esta espécie. Actualmente as subpopulações da tartaruga-comum no Atlântico Oeste estão lentamente a recuperar. Foi feita uma metaanálise dos dados de nidificação para as subpopulações e praias dos EUA, indicando uma tendência de aumento para a maioria (Myers et al. 2001). A subpopulação principal, na Florida do Sul, está a aumentar a uma taxa anual de cerca de 4% (Turtle Expert Working Group 1998, 2000, National Marine Fisheries Service Southeast Fisheries Science Center 2001).

    Habitat
    Os indivíduos adultos apresentam hábitos costeiros e os juvenis e subadultos ocorrem exclusivamente no alto mar.

    Nas águas portuguesas ocorrem predominantemente juvenis, que exploram as frentes oceânicas, onde encontram o alimento. Estas frentes não são fixas em termos geográficos. Normalmente as tartarugas não são observados junto da orla costeira, mesmo nas regiões insulares (Dellinger et al. 1997, Dellinger 2000).

    Factores de ameaça
    A nível mundial, a redução dos efectivos populacionais desta espécie é devida essencialmente às ameaças que actuam sobre as praias de nidificação. Nestas ameaças, causadas pelo homem, incluem-se as capturas de ovos e fêmeas nidificantes e o uso intensivo de praias para fins de lazer. O aumento da urbanização e das infraestruturas turísticas nas praias contribui para que as causas da redução não tenham cessado. No entanto, a adopção de medidas de protecção rígidas em locais ainda não sujeitos a um tão elevado nível de pressão humana tem permitido uma ligeira recuperação da espécie a nível mundial.

    Nas ZEE.s portuguesas o principal factor de ameaça à espécie é a captura acidental por artes de pesca (Bolten et al. 1994, Dellinger 2000, Dellinger & Encarnação 2000, Ferreira et al. 2001), especialmente os palangres. Os lixos persistentes, tais como plásticos, o crude e os apetrechos de pesca abandonados, incluindo linhas e redes, têm um impacto não quantificado mas provavelmente também significativo, nomeadamente através de enredamento e ingestão. O impacto de interacções com o tráfego marítimo e outras actividades humanas no mar, embora não tenha também sido quantificado, poderá igualmente afectar as tartarugas de forma negativa, em virtude de estas se encontrarem essencialmente nos primeiros metros da coluna de água. No entanto, em comparação com as fases vitais costeiras, as tartarugas em alto mar parecem ter uma taxa de sobrevivência superior (Bjorndal et al. 2003b).

    Até ao ano de 2003 as ZEE.s dos Açores e da Madeira eram exploradas quase exclusivamente por navios de pesca registados nos portos destas ilhas. O regulamento CE nº1954/03 reduziu a área restrita à pesca até às 100 milhas náuticas (mn) a contar da linha de base dos Açores e da Madeira. Assim a área entre as 100 mn e as 200 mn das ZEE.s da Madeira e Açores encontra-se aberta à pesca por outros países comunitários, sendo o esforço de pesca fixado anualmente. Esta situação, ainda não avaliada, poderá levar a um aumento das capturas acidentais de tartarugas marinhas, e a uma maior dificuldade de mensurar o seu impacto.

    Medidas de conservação
    Somente o conhecimento claro do impacto das diferentes artes de pesca sobre as tartarugas e a sua evolução ao longo do tempo permitirá desenhar medidas eficazes de conservação.

    Neste sentido deverá ser dada prioridade a programas de monitorização das capturas acidentais de tartarugas em artes de pesca, comercial e desportiva, que incluam uma obrigatoriedade de declaração dos animais capturados e implementação de programas de observação independente a bordo dos navios pesqueiros. Está em curso nos Açores, desde o ano de 2000, uma experiência visando a diminuição das capturas acidentais de tartarugas (Bolten et al. 2000). Na pesca de palangre dirigida ao espadarte foram testados anzóis com diferentes tamanhos e formas e em diferentes combinações. Os resultados mostram que a modificação da arte de pesca tem excelentes potenciais para reduzir a mortalidade das tartarugas (Bolten et al. in press). O impacto da captura com anzol sobre o comportamento migratório subsequente das tartarugas sobreviventes continua a ser estudado nos Açores (Riewald et al. 2001).

    Na Madeira está a ser analisado o comportamento de mergulho das tartarugas e quantificadas as profundidades mais sensíveis para a interacção com os palangres de pesca (Dellinger 2004). Este estudo tem vindo a mostrar que a redução do tempo de permanência dos anzóis nos primeiros 20m da coluna de água irá provavelmente reduzir as capturas acidentais de tartarugas, sem afectar as capturas da espécie-alvo. No âmbito desses projectos estão também a ser realizadas campanhas de educação e sensibilização ambiental.

    O número de tartarugas vítimas de poluição poderia ser diminuído com uma maior sensibilização, fiscalização e, se necessário, aplicação de medidas coercivas para infractores das leis sobre poluição no mar e em especial poluição com lixo persistente. Como contrapartida deveriam existir mais infra-estruturas de recolha de resíduos nos portos nacionais.

    Sendo Caretta caretta uma espécie de migração ampla, seria apropriado Portugal assinar o .Memorando de Entendimento relativo à conservação das tartarugas marinhas ao longo da costa atlântica de África. no âmbito da Convenção de Bona. Este promove a protecção integrada das populações ao longo da costa africana, incluindo as da Madeira que migram regularmente até às costas africanas de Marrocos e da Mauritânia (Dellinger 2000, Dellinger & Freitas 2000).

    Deve-se ainda trabalhar activamente para obter um acordo entre Marrocos, Mauritânia, Espanha e Portugal no sentido de proteger a área de distribuição da fase oceânica desta espécie. A actividade pesqueira (industrial e artesanal) em todas estas zonas deveria limitar e melhorar (de forma a reduzir os impactes) as artes com efeitos negativos sobre a espécie.

    Para além disto, devem-se desenvolver estudos no sentido de identificar potenciais áreas oceânicas importantes para a conservação das tartarugas marinhas durante a fase pelágica, com especial destaque para as zonas de bancos submarinos.

    Outra bibliografia consultada
    Brongersma (1972); Ehrhart (1982); Barbadillo (1987); Crouse et al. (1987); Groombridge (1990); Márquez (1990); National Research Council (1990); Bolten et al. (1993); Camiñas & de la Serna (1995); Meylan et al. (1995); Camiñas (1996); Encarnação (1998); Granadeiro & Teixeira (1999); Márquez (2000); Bjorndal et al. (2001); Fretey (2001); Bolten (2003); Dellinger et al. (2003).

    in Livro Vermelho dos Vertebrados

    segunda-feira, 13 de setembro de 2010

    O papel do adulto no escutismo

    Não sendo as finalidades Educativas fórmulas mágicas, para atingirem o seu pleno valor pedagógico, necessitam de um ritmo, um doseamento, um desenvolvimento, que não pode ser acção das nossas crianças, dos nossos adolescentes ou dos nossos jovens. Não há educação possível sem um certa relação com um adulto – É essa a razão de ser da presença dos Adultos no Escutismo. 
    A vida de uma criança adolescente ou jovem, é pobre em confronto com os adultos, o Pai sai de manhã até à noite «para o seu trabalho, para a fábrica, ou para o escritório» e este período de tempo para a criança adolescente ou jovem, um mistério. Frequentemente o adulto que ele encontra, esmagado por uma sociedade altamente hierarquizada, quer parecer alguém aos seus olhos. Tem tendência para considerar as crianças, os adolescentes ou os jovens inferiores a ele, e o diálogo é completamente falseado. Os adultos que as crianças encontram regularmente, estão muitas vezes em relação a elas numa situação que torna difícil uma verdadeira discussão, uma certa cumplicidade, pela qual a criança o adolescente ou o jovem teria realmente a impressão de estar a comunicar com um adulto. No entanto, a criança o adolescente ou o jovem tem necessidade dessa comunicação, gosta dela, e ela desenvolve-o, exercitando as suas capacidades de raciocínio ou de luta, permitindo-lhe as suas convicções ou pôr-se a si próprio em causa. 
    O Escutismo propõe a homens e mulheres serem este adulto que aceita ser plenamente ele próprio, mesmo vivendo em relação com as crianças, os adolescentes ou os jovens. Para isso não se trata de saber tudo, de ter feito estudos complicados, de ser um especialista em pedagogia, não. Trata-se de algum modo de ser um homem/mulher – criança como dizia Baden Powell, quer dizer, de ser plenamente homem/mulher, mas também em comunhão com as crianças, os adolescentes ou os jovens. Ter a capacidade de maravilhar-se, jogar, descobrir, vibrar, lutar, saber estar com eles, no meio deles e não ao lado, acima ou estranho ao seu mundo. 
    Baden Powell disse-nos acerca do Dirigente/Educador:
    1. Deve possuir em si o espírito de um rapaz, precisa de colocar-se espontaneamente ao mesmo nível dos rapazes com quem contacta.
    2. Deve compreender os principais traços psicológicos das diferentes fases da vida de um rapaz.
    3. Deve ter mais atenção a cada um dos rapazes do que ao seu conjunto.
    4. Deve desenvolver entre os rapazes um espírito de unidade, para alcançar os melhores resultados.

    domingo, 12 de setembro de 2010

    Touradas à corda

    Tourada à corda em pleno Alentejo, no Alandroal
    Há dias vi-me perante a necessidade de explicar a alguém o que era uma tourada à corda, esquecera quando anteriormente na conversa referira algo relacionado com a tourada, que essa é uma tradição da ilha Terceira. 
    Apesar de já ter assistido a uma tourada à corda em pleno Alentejo, com touros vindos da ilha Terceira... Mas aqui no litoral é uma tradição desconhecida!

    Nada melhor do que recorrer às palavras de quem tem melhores dotes de escrita do que eu:
     
    As corridas de toiros à corda, verificam-se em qualquer ponto da Ilha, excepto na cidade e o seu número é ilimitado, começando em Maio e acabando em Outubro. Há as tradicionais, ou sejam as que se realizam todos os anos sempre nos mesmos lugares e em dia imediato às festas dos impérios, dos padroeiros das freguesias e festas de Santo António, onde o povo à margem da Igreja, se cotiza para as realizar. Independentemente desta há as ocasionais promovidas por um indivíduo ou grupo de indivíduos, moradores em determinado lugar. Assim, numa mesma freguesia há várias por ano. 
    O número de toiros corridos é de quatro e a duração de tempo para cada um, é de meia hora. Do segundo para o terceiro toiro, há um intervalo de meia hora e de toiro para toiro, de um quarto de hora. As touradas começam às quatro da tarde, hora solar, e terminam ao pôr do sol. 
    Para o pagamento das despesas com as touradas tradicionais - aluguer dos toiros, licenças, jantar dos pastores, foguetes e outras verbas - o dinheiro é dado pelas comissões promotoras das festas, cujas receitas, afinal, provêm de donativos do povo da freguesia, para a realização das mesmas. Para as touradas ocasionais, reúnem-se diversos indivíduos, que se cotizam entre si, quando não são por um só indivíduo geralmente terceirense rico que vem da América, de visita à família. 
    As touradas de fama, onde são corridos toiros escolhidos a capricho das melhores criações da Ilha. Dá-se o nome de arraial ao lugar circunscrito para a tourada. A extensão é curta, pois em poucos casos excede quinhentos metros lineares e assim tem de ser para não cansar muito o toiro. 
    Muito antes da corrida, começam a chegar mulheres para tomar lugar nas janelas, muros e balcões das casas para onde foram convidadas. Cerca da uma hora da tarde chegam os toiros. Há alguns anos duas ou três vacas enchocalhadas - vacas de sinal - com um avanço de cinco minutos, seguiam adiante para anunciar aos transeuntes, que atrás vinha manada de gado bravo à solta. Os toiros apartados num curral da criação, saiam para a estrada acompanhados de vacas bravas com chocalhos ao pescoço e de pastores, uns atrás, outros adiante, seguidos dos cães de pastor, animais muito ligeiros que prestam enormes serviços no ajuntamento ou tresmalhe dos toiros. Caminhavam devagar, mas, quando entravam nos povoados, acelerava-se um pouco a marcha para os toiros se não espantarem e tresmalharem à vista das pessoas que apareciam pelas janelas e balcões. 
    Ao entrarem no arraial, essa marcha convertia-se numa autêntica corrida até chegarem ao toiril, ou seja um lugar reservado, em cerrado ou boca de canada, todo rodeado de armação de tábuas onde se encurralava o gado. No toiril havia uma gaiola, recinto onde embotavam o animal e lhe amarravam a corda ao pescoço pelo sistema de laçada. Hoje os toiros vêm metidos em gaiolas que são transportados em camionetas e postos em determinado local. Todo o trabalho assim se simplifica, como é menor o perigo da fuga de algum animal. 
    Como quer que seja após a chegada dos toiros, o arraial povoa-se mais e mais. Caminha-se pela estrada, pelo terreiro ou pela canada aos encontrões. Ranchos de raparigas garridamente vestidas, alegram as janelas, varandas, balcões e muros das casas, como festões de flores. Os rapazes fazem-lhes frente, falam-lhes de boca pequena e dizem galanteios. Vendedores ambulantes com cestos de asa, em ambos os braços, vendem tremoços, milho e favas torradas, amendoim e pevides apregoando "Olha a fava nova!... Quintinho!... Olh'ós salgadins! ... " 
    O movimento é intenso e as vendas - de grossos paus dispostos verticalmente a meio das portas, para não deixar entrar o toiro, estão pejadas de gente. Há tascas improvisadas nas pontas do arraial ou dentro dele em lugar seguro, oferecendo graciosamente como puxavante o molho d'unhas: cozinhado de favas escoadas deitadas em cestos forrados de feitos, de onde as tiram à discrição e, depois de descascadas, as ensopam num único prato com vinagre, sal e massa de malagueta, reduzindo o conteúdo, ao cabo de pouco tempo, a uma massa acinzentada de tanto chafurdarem. Mas isso não importa e ao grito de "íamos dentro" a tasca mais e mais se enche ao passo que o tasqueiro não tem mãos a medir para encher os copos de vinho de cheiro. 
    Um foguete atirado do toiril, anuncia que se vai proceder à embolação. Depois de amarrado o toiro, a corda sai por uma fresta da gaiola e os homens da bolsa, começam a estendê-la para um dos lados do arraial em todo o seu comprimento. Pouco depois um foguete anuncia que vai sair o toiro. Toda a gente se dispersa atabalhoadamente, encontroando-se, empurrando-se, caindo. Uns trepam pelos buracos das paredes de pedra solta procurando poiso no cimo destas; outros escalam muros, outros refugiam-se nas vendas, nas tascas, ou na maior parte, procuram os extremos do arraial. Apenas alguns rapazes já graúdos se deixam ficar no caminho, a certa distância do toiril para verem mais de perto a saída do bicho e poderem capeá-lo. 
    Então abre-se a porta da gaiola e um grande alarido anuncia a saída da alimária, que, numa correria veloz leva adiante de si toda a gente que se encontra no caminho, fazendo igualmente deslocar-se, numa fuga desordenada a massa dos pacatos que na extremidade do arraial se dispunham a ver sossegadamente a corrida ao longe. Atrás segue a outra massa dos pacatos, da extremidade oposta, que deseja ver o que se passa adiante. Então o toiro pára e em volta faz-se um terreiro, onde apenas um ou outro mais audaz se afoita a passar correndo em frente ao toiro arremedo de toureiro pelintra; mas precisamente, quando o animal se dispõe a arremeter, logo outro, abanando um casaco o distrai da primeira arremetida e assim por algumas vezes até que o animal toma a querença. A expectativa é geral. Os pastores do meio da corda tentam puxar a rês, que já não obedece aos acenos dos que a provocam. Limita-se a escavar e a rugir, de língua de fora e baba pendente dos beiços. Então apresenta-se um homem de guarda-sol aberto e cita a alimária a uns metros de distância. É a sorte de guarda-sol. 
    Esquiva-se o homem à arremetida, enquanto o toiro desperto, voltando-se em sentido contrário àquele em que ia, leva atrás de si o que era a vanguarda e adiante, o que era a retaguarda, com o que se não contava. Os homens da bolsa viram a mão e procuram refúgio numa venda ao passo que os do meio da corda se atiram contra as valetas de bruços, à míngua de outro abrigo mais seguro e todos na ânsia enorme, desaustinada, do salve-se quem poder, correm desordenadamente. Há cambrelas e basta um cair para muitos outros também caírem. Para as mulheres e para quem está em lugar seguro, há estridências de riso, gargalhadas, vaias, assobios, em esgares de contorsões alvares, mormente quando algum se levanta esfarrapado de bragas à mostra nos fundilhos das calças. O toiro pára novamente, atónito, ofegante, esbaforido e reverte-se novamente à crença, como eles dizem. Das portas, das vendas, dos balcões, das varandas, das janelas, atiram-lhe com trapos velhos, batem as palmas e gritam: "Ê toiro"! O círculo de gente à volta da rês vai apertando, na confiança de animal cansado. Alguns aproximam-se em corrida veloz e tocam-lhe num galho; outros dão-lhe palmadas na nuca. 
    Então um pastor do meio da corda, farto de ver "acanalhar o toiro", tenta pôr a corda sobre o lombo do animal e esticando-a atira-lhe uma vardascada violenta que o desperta. O toiro desperto pela chicotada arremete furioso e lança-se como um raio sobre a multidão enquanto que a corda desenrolando-se e esticando-se pela violência da corrida, atira com uns tantos incautos de encontro à parede ou ao chão em quedas espectaculares, tremendamente ridículas. Na frente não se contava com a corda falsa nem com este arranque formidavelmente súbito, e um dos fugitivos é colhido e esfrangalhado pelo animal. Das janelas, balcões e varandas, as mulheres soltam gritos de pavor, numa ânsia de pânico e da multidão levanta-se um clamor imenso. Homens afoitos correm para o toiro, pegam-lhe de cerneira e conseguem tirar a vítima das hastes do boi, enquanto que outros se agarram ao rabo e à cabeçada da corda para não o deixar arremeter. 
    Estas colhidas, se na maior parte das vezes são cómicas e até ridículas, outras transformam-se em autênticas tragédias, chegando-se a tirar debaixo do toiro um moribundo ou um cadáver, ao passo que muitos têm sucumbido de lesões adquiridas nestas colhidas. Mas tais acidentes, trágicos que sejam, não impedem a continuação da tourada e o toiro livre da pega forçada, lá continua a carreira, levando na sua frente uma multidão e arrastando outra. Por vezes, investe contra a parede de um cerrado, pejada de gente e guinda para a parte de dentro, estabelecendo pânico e confusão. 
    Uns saltam para fora, e outros inadvertidamente para o cerrado onde o toiro, em campo largo, arremete furiosamente contra tudo e todos, até que o tiram dali, à força de o puxarem pela corda. Novamente no arraial continuam as peripécias e assim continua o toiro a sua odisseia, até chegar a hora de o meterem novamente no toiríl. Um foguetão anuncia a recolha do cornúpeto, enquanto cá fora, no arraial o povo comentando as peripécias da corrida diz: "É um bicho de ruspeito"! Para os restantes toiros os factos repetem-se, mas, a corrida continua com o mesmo interesse e euforia.
    fonte (Maria Alice Dias, in "Ilha Terceira", 1982) in Acores.com