quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Salaria fluviatilis, Caboz-de-água-doce

Taxonomia
Actinopterygii,  Perciformes,  Blenniidae.

Tipo de ocorrência
Residente.
 
Classificação
EM  PERIGO  -  EN  (B1ab(iii)+2ab(iii))
Fundamentação: A extensão de ocorrência e a área de ocupação desta espécie são muito reduzidas (cerca de 150 e 100 km2, respectivamente). Verifica-se que a sua distribuição apresenta fragmentação acentuada, tendo sido detectada em apenas dez localizações e admite-se um declínio continuado na área, extensão e qualidade do habitat.

Distribuição
A espécie ocorre na região circum-mediterrânica, desde a Península Ibérica até à Península Balcânica. Em Espanha é encontrada nas bacias hidrográficas dos rios Ebro, Júcar, Bullen, Fluviá, Verde e Guadiana, tendo desaparecido da albufeira de Valência e provavelmente do rio Segura (Doadrio 2001a). Em Portugal distribui-se na bacia hidrográfica do Guadiana, de forma bastante localizada e fragmentada, no rio principal e em nove sub-bacias, sendo capturada com maior frequência no rio principal e nas sub-bacias de Alcarrache, Ardila e Degebe (Collares-Pereira et al. 2000a, Tiago et al. 2002, Collares-Pereira et al. 2002a).

População
Calcula-se que o número de indivíduos maduros seja superior a 10 000. A redução da população nos últimos dez anos poderá ter sido inferior a 30% e poderá continuar a verificar-se nos próximos dez anos ou em qualquer período da mesma amplitude que abarque o passado e o futuro devido à actual e futura implementação de empreendimentos hidráulicos na região e à consequente perda de habitat. As causas  da  redução  embora  geralmente  compreendidas,  não  são  reversíveis, nem cessaram. A avaliação da redução é baseada no declínio da qualidade do habitat e também na expansão de espécies não indígenas. 

Dada a sua actual distribuição fragmentada, admite-se que tenha ocorrido nas últimas décadas um declínio continuado na área, extensão e qualidade do habitat ocupado pela espécie devido a vários factores de ameaça.

Habitat
Esta espécie, territorial e bentónica, ocorre em cursos de água permanentes ou intermitentes, de ordem elevada e corrente moderada, com baixa profundidade, águas bastante oxigenadas e temperatura relativamente baixa (Changeux & Pont 1995, Tiago et al. 2002, Filipe et al. 2004), necessitando de substrato de granulometria média para a sua reprodução (Freeman et al. 1990, Coté et al. 1999). Também habita zonas lênticas que tenham substrato com as mesmas características onde possa  realizar  as  posturas  e  obter  refúgio  (Prenda  &  Mellado  1993,  Rodriguez-Jimenez  et  al.  1994,  Changeux  &  Pont  1995,  Vila-Gispert  &  Moreno-Amich 1998,  Neat  et  al.  2003).  Não  há  registos  da  espécie  em  albufeiras  (Ferreira  & Godinho 2002).

Factores de Ameaça
Os principais factores de ameaça são a alteração do habitat, provocada sobretudo pela construção de barragens, alteração do regime natural de caudais, captação de água, extracção de inertes, degradação da qualidade da água e também a introdução de espécies não-indígenas (Collares-Pereira et al. 2000a,b, Tiago et al. 2002) a qual poderá ter efeitos a nível da competição, predação ou como via de disseminação de agentes patogénicos. A extracção de inertes provoca a diminuição do tamanho médio dos sedimentos do leito dos cursos de água, o que diminui o seu sucesso reprodutor (Côté et al. 1999). É de realçar a redução e degradação generalizada do habitat na bacia hidrográfica do Guadiana, resultante da construção de diversas barragens (Odeleite, Enxoé, entre outras) e actualmente pela implementação do Empreendimento de Fins Múltiplos do Alqueva.

Medidas de Conservação
Esta espécie está abrangida pela legislação nacional e internacional de conservação. O caboz-de-água-doce foi abrangido nos estudos sobre a comunidade piscícola da bacia hidrográfica do Guadiana efectuados no projecto LIFE-Natureza dirigido  para  o  saramugo Anaecypris  hispanica  (Collares-Pereira  et  al. 2000a) e sobre as medidas de Minimização e Monitorização para o Património Natural da Barragem do Alqueva (Tiago et al. 2001, Collares-Pereira et al. 2002a). Algumas acções  de  manutenção  e  conservação  do  habitat  (nomeadamente  na  melhoria da qualidade da água e algum controlo das extracções de inertes) têm sido efectuadas mas necessitam ser reforçadas.

É necessária a recuperação das zonas mais degradadas e o controlo das espécies não-indígenas,  medidas  previstas  no  Plano  de  Bacia  Hidrográfica  do  Guadiana (INAG 1998), no Plano de Gestão do Saramugo (Collares-Pereira et al. 2000b) e no estudo de Minimização e Monitorização para o Património Natural da Barragem do Alqueva (Tiago et al. 2001, Collares-Pereira et al. 2002a). As medidas preconizadas na Directiva-Quadro da Água deverão atingir a melhoria permanente da qualidade dos habitats aquáticos. Devem ser minimizados os impactos de infra-estruturas hidráulicas implantadas ou a implantar, através do restabelecimento da conectividade entre as populações e da manutenção dos caudais mínimos, especialmente durante  a  época  estival.  Em  particular,  devem  ser  evitadas  ou  controladas  as captações de água durante esta época, nomeadamente nos pegos. Outras medidas necessárias são o controlo da extracção de inertes, a gestão sustentada da pesca e a melhoria da sua fiscalização e ainda a sensibilização do público para a conservação dos ecossistemas aquáticos. É necessário aumentar os conhecimentos sobre a biologia e ecologia desta espécie, monitorizar os seus efectivos populacionais (em particular nos rios principais) e a eficácia das medidas de conservação a  implementar.

Outra bibliografia consultada
Viñolas  (1986);  Perdices et  al. (2000).
in Livro Vermelho dos Vertebrados

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